20 de Junho, 2024

Relações humanas no contexto do trabalho contemporâneo

O Grito, Edvard Munch

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*Eleazar Barbosa

No livro As Ligações Perigosas (Les liaisons dangereuses), obra de Pierre Choderlos de Laclos, o autor detalha em minúcias com maestria os contatos da burguesia francesa em 1782. As conexões relatadas na obra – prima sob um trama de acontecimentos ocorriam através de cartas, o cerne das relações humanas se constituem nos manuscritos do clássico.  

E relações humanas ou interpessoais, no mundo contemporâneo, se estabelecem na conjuntura do ambiente de trabalho que está se configurando para uma modalidade da nova ordem mundial pós – pandemia, o trabalho home office.

De acordo com o CEO da Abler, Alisson Souza, empresário que aderiu ao formato de trabalho em sua empresa, alerta que trabalhar via home office exige uma construção contínua de confiança entre líderes e equipe. “Precisa existir um alinhamento sobre os objetivos, prazos e expectativas, porque todas as entregas são mensuradas e o resultado é sempre analisado. É importante também estabelecer canais de comunicação, limites, rotinas para que tudo ocorra de forma transparente para frisar o que é esperado de cada colaborador”, menciona Alisson.

Apesar de estar amadurecendo este perfil de ofício profissional tecnológico na linha de condução da produção, o assédio moral na ambientação do trabalho é um paradigma que fixou nas relações humanas durante todo o período pré – home office. E segundo a advogada e especialista na temática, Antilia Reis, assédio moral é a exposição a situações humilhantes, vexatórias e constrangedoras no ambiente de trabalho, de forma repetitiva e prolongada, no exercício das atividades.

De acordo com a especialista, essa conduta traz danos à dignidade e integridade do indivíduo e coloca a saúde em risco e prejudica o ambiente de trabalho. “São condutas abusivas reiteradas, manifestando-se por comportamentos, palavras, atos, gestos ou escritos que possam trazer danos à personalidade, à dignidade ou à integridade física e psíquica de uma pessoa, pondo em perigo o seu emprego ou degradando o ambiente de trabalho”, enfatiza Antilia.

A advogada revela um caso que evidencia a dimensão de um exemplo desta natureza, “o assediador era misógino, homofóbico e gordofóbico e assediou todo um departamento tendo inclusive ameaçado fisicamente a chefe do departamento. Como é um profissional, funcionário público, muito famoso e renomado no território nacional todas as denúncias foram arquivadas fazendo com os atos abusivos fossem cada vez maiores”, realça a especialista.

A COMUNICAÇÃO É O PILAR DAS RELAÇÕES DE TRABALHO, SALIENTA PSICÓLOGA 

Nesta entrevista exclusiva concedida para o site Diário Vale Ceará, a psicóloga piauiense Silvia Lira, formada em Psicologia pela Universidade Cruzeiro do Sul, com atuação na psicologia clínica e na psicanálise, em exercício desde março de 2020 no atendimento home office, a especialista aponta que o motivo do assédio nunca é responsabilidade da vítima, e ela elucida, “o ponto não é passar as ordens, não é exigir, mas sim como isso é feito, a maneira como a cobrança, a pontuação e a crítica são feitas, isso vai dizer mais sobre como é essa relação entre ‘patrão e empregado’ ou até mesmo entre ‘empregado e empregado’, tudo que deve ser analisado é a forma da comunicação.”

– Por que acontece assédio moral no ambiente de trabalho?

Silvia Lira – Assim como qualquer outro tipo de assédio, o motivo nunca é responsabilidade da vítima. Se avaliarmos as relações de trabalho como relações de poder, temos um primeiro indício que nos leva a refletir sobre as motivações da ocorrência de um caso desses. Além disso, é importante reconhecer que assim como na sociedade, os preconceitos como racismo, LGBTfobia, machismo, entre outros, também são reproduzidos dentro do ambiente laboral, tais práticas perpetuadas extrapolam os limites de respeito ao próximo. O assédio moral é atravessado por muitos fatores. Pensando nisso, é imprescindível que os trabalhadores saibam dos seus direitos, que valem fora e dentro da empresa, e que caso tenham dúvidas sobre algo nas relações de trabalho, que procure a área de recursos humanos para averiguar o que é possível fazer, a depender da situação é importante o acompanhamento psicológico, e se for necessário, o amparo jurídico. 

O que pode ser caracterizado como assédio moral? 

Silvia Lira – O assédio moral é caracterizado por palavras e ações de cunho agressivo e humilhante que se repetem de forma processual, um aspecto importante a ser citado é que tais atitudes visam prejudicar o trabalhador de maneira intencional por meio muitas vezes do constrangimento, sendo uma ou mais pessoas envolvidas, além de poder ocorrer em todas as modalidades de relações, independente de qual posição a pessoa ocupe dentro da hierarquia da empresa.

– Na empresa há situações onde as relações interpessoais ocorrem de maneira leve e fluida, ou então nestes setores onde ainda prevalece a linha hierárquica onde o chefe impõe pontuações, e cobranças. Em qual linha de atuação se estabelece o ideal para trabalhar e por assim refletir na produção do trabalho?

Silvia Lira – O ideal é relativo, analisando que isso só existe na forma literal, porque o que acontece na prática são duas situações completamente diferentes. Pensando no ideal é muito importante que, principalmente os gestores e líderes, tenham a capacidade de comunicar aquilo que precisa ser feito de uma forma assertiva, de uma forma respeitosa. O ponto não é passar as ordens, não é exigir, mas sim como isso é feito, a maneira como a cobrança, a pontuação e a crítica são feitas, isso vai dizer mais sobre como é essa relação entre “patrão e empregado” ou até mesmo entre “empregado e empregado”, tudo que deve ser analisado é a forma da comunicação. Quando a gente pensa em uma comunicação que tem um cuidado e um respeito com o outro, e que dá ao outro a possibilidade de ter um lugar de fala, talvez isso reflita em ter uma rotina mais produtiva no desenvolvimento do trabalho. Falando no senso comum, as pessoas precisam tratar as outras pessoas como pessoas, então a gente vive em uma sociedade que é fruto escravocrata que ainda permeia as relações de trabalho, não podemos nunca esquecer disso. Então, as práticas de assédio no ambiente de trabalho também são vistas muito por esse passado, que infelizmente se encontra muito presente, principalmente onde existe uma forte relação de poder. 

– Em pleno século XXI, como você analisa, vislumbra como devem ser as relações humanas no trabalho, apesar do crescimento vertiginoso da tecnologia na ampliação dos meios de produção?

Silvia Lira – O que a gente tem percebido é que, principalmente em startups que tem um público mais jovem, com pensamentos menos conservadores a respeito do próprio trabalho, que tem uma capacidade de diálogo e de comunicação melhor em alguns pontos, torna o trabalho menos penoso, em algo que não precisa doer, não precisa ter sofrimento, essas novas empresas estão nessa toada, nesse caminho de ter um profissional com mais lugar de escuta, com mais lugar de fala. Onde ele é olhado como um sujeito que tem muito valor dentro da organização. Isso também impacta na forma como essas pessoas vão se relacionar no trabalho e até na forma que eles vão entregar determinados projetos. Então é importante se pensar em como ter uma relação de trabalho de forma respeitosa. A base de tudo é o respeito, a dignidade do outro poder ser o outro independente da maneira que essa escolha for feita.

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